Entrevista com Cris Alves

Como você chegou à área de curadoria e o que te motiva?

Cris: De formação sou arte-educadora, e tenho mestrado na área de design, onde pesquiso design de exposições. Nessa trajetória, fiz também uma especialização em crítica de arte e curadoria, porque meu caminho está muito ligado a essa relação que a arte estabelece com as pessoas, à mediação. Falo da relação que os espaços, sejam museológicos, instituições culturais, ou a arte que vemos na rua, sem hierarquia entre eles, estabelecem com os objetos sensíveis, os que contam histórias. Isso que chamamos de arte e cultura é, no fundo, a produção das pessoas.

Sempre me interessou pensar em como as pessoas se relacionam com isso, como isso chega até elas e transforma o olhar de cada uma, como se provoca esse olhar, essa reflexão, essa sensibilidade. Isso sempre foi o que me motivou, e é por isso que sinto uma alegria grande em trabalhar dentro dessas duas áreas que, para mim, se complementam, a educação e a curadoria. Penso na educação museal, na educação para o patrimônio, para a arte, para o olhar, e penso na curadoria. Acho que as duas coisas estão muito próximas, porque tanto a educação e a mediação cultural quanto a curadoria são, no fundo, um exercício de refletir e provocar as pessoas a se relacionarem com a obra. A gente não explica nada para ninguém, a gente provoca, convida as pessoas.

Foi por aí que cheguei a este momento. Minha formação é em artes, sou arte-educadora, fui fazendo especializações, fiz mestrado, e vejo esse caminho que venho percorrendo, no estudo, na pesquisa e na prática profissional, ligado a essa pergunta, como a gente desenvolve exposições e mediações que alcancem as pessoas.

Qual é o papel da curadoria para efetivar essa aproximação com o público?

Cris: Olha, eu acho que é um desafio. Porque, quando a gente fala de curadoria, às vezes se pensa que o curador é aquele profissional que pensa a exposição e, pronto, ela magicamente aparece. Mas não é assim, um processo curatorial é, antes de tudo, coletivo, ainda que o curador seja quem cria o percurso, a narrativa curatorial.

Essa narrativa vem de um processo de seleção que, às vezes, deixa muito mais de fora do que põe dentro, por isso precisa ser algo muito preciso, com uma narrativa clara e uma intencionalidade objetiva. Essa seleção vem de uma pesquisa anterior, existe todo um arcabouço de conhecimento, toda uma produção teórica em que a curadoria vai imergir, se aprofundar, explorar, para criar essa narrativa. E, além disso, tem o espaço, como isso se transmite na materialidade de um espaço expositivo.

Essa materialidade, seja concebida pelo curador, seja por arquitetos, designers, profissionais do design expositivo, também conta uma história, o espaço tem a sua própria narração. São muitas etapas e muitas linguagens que se unem numa curadoria para convidar o público, e o público também é mais uma dessas linguagens.

Acho que a curadoria tem esse caráter de agregar diversas linguagens, produções de conhecimento e mediações, e esses processos vão desde o estudo, passando pela seleção das obras, pela criação da narrativa, até a pedagogia do espaço, que também cria suas próprias narrativas, às vezes contradizendo a curadoria, às vezes corroborando com ela. Numa curadoria você também tem múltiplas vozes, às vezes dissonantes, às vezes convergentes, tudo isso para desenvolver uma proposta de arte, de cultura, para o público.

Como foi traduzir essa visão curatorial em uma exposição sobre a cidade de São Paulo, tão múltipla e contrastante?

Cris: Olha, foi muito desafiador. Preciso me referir a um tempo anterior. A Casa Museu, a partir da curadoria do Paulo de Freitas Costa, pensa a programação por temas anuais, e a proposta curatorial dele tem sido o tema memória nos últimos anos. Começou pensando na memória da própria casa, dos habitantes que aqui viveram, porque, quando vemos essa casa de uma milionária no Jardim Europa, esquecemos que ela só funcionava porque havia um grupo de funcionários que trabalhava e morava aqui, com um funcionamento de casa antes de se tornar casa museu.

Ele trouxe essa história, a história da casa. Na exposição seguinte, “Quando São Paulo era Piratininga, arqueologia paulistana”, contamos a história do território e dos diversos povos, com seus saberes e tecnologias, que a gente nem imagina que viveram aqui, trazendo um conhecimento sobre sítios arqueológicos pelos quais passamos todos os dias sem saber que existem.

Essa é a memória do território, e foi a partir dela que o Paulo idealizou a nova exposição, para falar sobre outras memórias de casa, outras experiências de casa. Ele convidou o setor educativo para a curadoria, e começamos a pensar em como, numa cidade tão contrastante, tão abrangente e diversa quanto São Paulo, a gente poderia falar sobre o morar.

Foi aí que pensamos na literatura. Quando começamos a pesquisar, não sabíamos se encontraríamos a literatura feminina que gostaríamos, porque queríamos contar essa história pelo viés de escritoras, e foi surpreendente descobrir uma literatura feminina tão vasta. No início, achávamos que ficaríamos circunscritas às autoras já históricas, como Zélia Gattai e Gilda de Mello e Souza. Mas descobrimos uma geração de escritoras contemporâneas, como Adriele Oliveira, Lília Guerra, Eliane Silvestre, Giovana Madalosso, Paula Fábrio e Prudence Kalambay, além da própria Rita Lee, todas falando dessa cidade por pontos de vista muito diferentes e, ao mesmo tempo, simultâneos.

Fomos pesquisando, e muita coisa ficou de fora. No início tínhamos dezoito autoras e tivemos que fechar em dez, porque qual era o nosso desafio? As pessoas estão visitando uma exposição, não estão sentadas lendo um livro. Então, como fazer para que se sintam confortáveis para ler esse texto, instigadas a lê-lo? Esse foi o nosso objetivo, e posso dizer que deixamos muita coisa de fora, muita coisa mesmo, porque a literatura dessas mulheres tinha uma qualidade, uma sensibilidade, uma riqueza enormes.

Uma coisa que ficou muito forte nesse processo curatorial foi perceber que a linguagem do morar podia contar a diversidade e a pluralidade de vivências em São Paulo. Encontramos situações muito semelhantes acontecendo nessas literaturas em tempos e espaços muito diferentes, e situações muito diferentes acontecendo ao mesmo tempo, essa simultaneidade, essa convergência, essas camadas de tempo, as sutilezas do cotidiano, mas também um olhar para a passagem do tempo.

Foi assim, percebendo o que ia aparecendo na literatura, que fomos discriminando os núcleos da exposição. Primeiro percebemos o quanto se falava de família, de trabalho, de relações, as relações de trabalho das mulheres que trabalham na casa, as relações de trabalho entre as pessoas. Vimos muito também a memória dos próprios objetos, que é o núcleo “memória dos objetos e dos espaços”, cada objeto que não é apenas um objeto, mas conta uma memória, e todas elas falam sobre isso, independentemente do contexto social, os sons que invadem da rua para dentro de casa e da casa para a rua, os cheiros, as texturas, a relação com a janela para fora, o que as pessoas veem.

Percebemos também outra coisa, que deu nome ao núcleo “a cidade sonhada”, essa projeção de se ver no outro, de perceber o mundo a partir da própria referência, a empatia, as identidades e alteridades que iam aparecendo nesses textos. Foi assim que fomos discriminando os cinco núcleos da exposição.

Acho que o que a gente realmente queria era trazer essa diversidade de mulheres, escritoras, artistas, de diferentes idades, estilos, contextos sociais, regiões, tempos históricos, mas que se aproximam por meio de uma narrativa de São Paulo ao mesmo tempo individual e universal. São relatos engraçados, dramáticos, poéticos, nostálgicos, trágicos, mas com os quais a gente também pode se identificar, porque fazem parte dessa vivência, sem negligenciar, e justamente por isso enfatizando, a dureza desse contraste de São Paulo, dessa cidade tão dura, tão desigual, que passa despercebida no cotidiano, no automático. Por meio da literatura também quisemos enfatizar isso.

Para dialogar com esses textos, fomos buscar imagens em arquivos particulares das escritoras, em arquivos públicos e privados, e também com fotógrafas e fotógrafos que nos cederam imagens. Fomos cruzando texto e imagem para criar uma visualidade, uma poesia visual, e para trazer essa memória de documentos históricos.

Uma terceira camada da exposição, importante pensando no conforto do espaço, foi ter esses textos gravados, assim, quem não quiser ler pode ouvir. Quem quiser percorrer o espaço olhando as fotos ou os objetos da casa, e parar para ouvir, também pode. Para a interpretação desses textos, convidamos as mulheres que compõem as equipes da Casa Museu, de diversas áreas e idades, e foi muito bonito ver mulheres jovens lendo escritoras consagradas. A Zélia Gattai, por exemplo, foi lida por uma moça muito jovem, e uma escritora jovem, como a Driele, foi lida por uma mulher mais velha. Essa intersecção de experiências era um pouco o que queríamos alcançar.

Como foi o processo de dialogar especificamente com as experiências e memórias femininas nessa narrativa urbana?

Cris: Nossa, essa pergunta é incrível. Porque, apesar de serem relatos femininos, queríamos que a exposição fosse bastante plural e abrangente. E acho que ela é plural justamente porque fala a partir da perspectiva feminina, e a própria equipe de curadores é bastante diversa, com pessoas de vários gêneros.

Mas todos nos voltamos para essa perspectiva, e observamos que ela é muito abrangente, no sentido de que a mulher está, ao mesmo tempo, em muitos lugares, ocupando muitos papéis. Essas mulheres, principalmente por questões sociais e políticas, estão em muitos lugares e em poucos lugares ao mesmo tempo. É uma perspectiva de mulheres que trabalham e que, ao mesmo tempo, estão na casa como quem cuida, organiza, constrói essa casa, mas que também constroem as relações.

Uma coisa que aparece muito no livro “Casa de Família”, da Paula Fábrio, mas que vimos em muitos outros textos, é justamente essa questão, a da mulher que vem trabalhar na casa de família e a daquela que tem outra mulher trabalhando para ela. Perspectivas diferentes, mas muito próximas, de uma mulher que se relaciona com muitas pessoas, com os familiares, os amores, consigo mesma, com a cidade, que precisa se deslocar por ela. E a perspectiva do deslocamento, pensada a partir do feminino, é muito diferente.

Vimos isso, por exemplo, numa das obras que ficou de fora, “Espelhos da Quebrada”, que acabou virando um vídeo. Achei muito interessante, são escritoras jovens que vêm do slam ou da poesia declamada, e é interessante como pensam a cidade a partir dos seus deslocamentos, tão diferentes entre si.

Nessa perspectiva feminina, e não dá para romantizar, é preciso colocar que é uma perspectiva de muita luta, de muito sofrimento e de muita superação. Quando você pega a Carolina Maria de Jesus, uma das autoras que ficou de fora, ela fala sobre o desespero de não ter o que dar de comer ao filho. É muito duro, muito sofrido, e ela transforma isso num texto absolutamente belíssimo.

Isso tem tudo a ver com a Lília Guerra, que nos conta, num dos contos, sobre a avó que a levava para a escola, andando pela Ricardo Jafet. A tia fazia um ovo frito maravilhoso, e só depois de crescida ela percebeu que aquele ovo, misturado com o arroz, era para render mais para todos os filhos. Às vezes tinham que pular a enchente na Ricardo Jafet, e isso era uma aventura, só depois de adulta é que ela foi perceber os perigos. Também temos relatos como o de Zélia Gattai, que conta as travessuras e o olhar delas para esse mundo adulto tão estranho e engraçado, as descobertas de Gilda de Mello e Souza, que vem de outra classe social, mas enfrenta os desafios de ser uma das primeiras mulheres intelectuais da universidade.

Para resumir, a perspectiva feminina é muito abrangente porque essa mulher está em muitos lugares ao mesmo tempo, sempre tendo que romper barreiras, se colocar, se reafirmar. E essa reafirmação vem primeiro de dentro, é esse interior se fortalecendo para ocupar esses lugares. Mesmo quando é o lugar da casa, historicamente colocado como o lugar da mulher por excelência, ainda assim esse lugar é construído, porque ela está o tempo todo pensando em quem entra nessa casa, em como ela se relaciona com o fora. O dentro e o fora estão se relacionando o tempo todo.

Acho que essa perspectiva, e a exposição, deixam isso claro, e não quero menosprezar as dificuldades do ser humano, independentemente da classe social, nesta cidade. Mas existe uma dificuldade, uma luta, um desafio específico das mulheres, e essa perspectiva traz isso. Traz também os afetos, e acho que é, na verdade, uma perspectiva política.

Sabe, quando a gente pensa em todas essas relações que essas mulheres estabelecem com a cidade, percebe que não está falando só de mulheres, a partir delas chegamos em como pensamos politicamente essa cidade. É uma perspectiva que abre os olhos e as janelas para pensar como essa cidade se constrói politicamente para todas as pessoas, porque essa mulher é mãe, trabalha, se relaciona. Se a cidade é acolhedora para as mulheres, ela é acolhedora para todo mundo. Se conseguimos perceber esses contrastes absurdos e desafios específicos das mulheres, conseguimos perceber o quanto isso é desigual e opressivo para todas as pessoas.

Pensando no mercado cultural, quais mudanças você considera mais urgentes para garantir reconhecimento e permanência à produção das mulheres?

Cris: Olha, acho que vivemos um período de muita dificuldade. Ao mesmo tempo que já se romperam muitas barreiras, ainda temos muito o que romper, e vivemos um ambiente cultural, artístico, muito opressivo para as mulheres. É interessante que, ao mesmo tempo, temos muita produção feminina, as últimas feiras de livro trouxeram um dado, existem muito mais escritoras e leitoras mulheres do que homens, e isso vem crescendo cada vez mais.

Vemos isso em todas as manifestações artísticas, as fotógrafas, as pintoras, as escultoras, as dançarinas, e no esporte também, vamos ter uma Copa do Mundo feminina aqui no Brasil, já comentada, quando antes praticamente não se falava dela.

Por um lado, acho que a gente vem abrindo esse espaço. Por outro, esses espaços ainda são muito machistas e misóginos, e é muito paradoxal que, apesar de tudo, apesar dos espaços de arte, cultura, esporte que a mulher está ocupando, este seja o país que mais mata mulheres. É o país onde a palavra misoginia virou algo que agora ecoa, porque estamos olhando para uma misoginia absurda.

Ao mesmo tempo que temos essa produção de mulheres, temos situações inacreditáveis, como se considerar que as mulheres não devam votar, ou que uma mulher estuprada tem, naquele estuprador, um pai para a criança. Vemos casos horrendos todos os dias, e acho que essa misoginia e esse machismo ainda imperam em todos os mercados.

Ainda temos muitos espaços de arte dirigidos por homens, homens artistas privilegiados no lugar de mulheres artistas, a percepção de que a mulher, quando se coloca, é louca, é histérica. Isso ainda existe, ainda impera, e é de causar espanto. Quando uma mulher se coloca, seja em qual mercado for, ela é doida, é histérica. Quando um homem se coloca, ele é assertivo. Isso ainda impera.

Também acho que vivemos um período, pelo menos em termos de cidade e estado, de um recrudescimento absurdo da cultura e da arte. As políticas públicas para a arte, a cultura, o patrimônio estão sofrendo um boicote muito absurdo, e a gente percebe isso em todas as instituições culturais, de educação, de lazer, desde os museus até as bibliotecas e as escolas. Vemos um sucateamento muito grande dos espaços de arte, das formas de participação coletiva das pessoas.

Isso faz com que tenhamos menos percepções, menos sensibilidade, menos discussão, menos espaços de reflexão, o que faz com que a dureza, a misoginia, essa falta de reflexão teórica, aumente. Temos menos reflexão teórica porque temos menos espaços de arte e cultura, e portanto menos mulheres ocupando esses espaços. A questão da mulher, novamente, passa também por essa questão política, que é social.

Acho que fugi um pouco do tema, mas vejo que essa estrutura está cada vez mais precária. Pensando na cidade e no estado, temos uma estrutura de participação na cultura e na arte muito precária, muito sucateada, e isso faz com que o pensamento não mude, porque não existe um processo de sensibilização, de reflexão, de acúmulo

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