Entrevista com Thiago Barletta
Thiago, como sua trajetória pessoal e suas primeiras influências o levaram a escolher a arte gráfica como meio de expressão?
Eu sempre fui muito visual. Meu começo foi na fotografia, com pessoas que falavam coisas muito interessantes por meio das imagens. Só que eu nunca tive muita paciência para ser fotógrafo. O equipamento até me motivava por um tempo, mas depois perdi o interesse. Sempre gostei muito de cinema, não só de fazer, mas principalmente de consumir, e consumi muita coisa brasileira.
Nesse período, trabalhei em agência de publicidade, sempre como designer gráfico, criando peças e materiais para o mercado. Até que comecei a perceber outras pessoas fazendo coisas diferentes através do design.
Então, comecei pelo design, mas hoje em dia talvez eu já não me enquadre mais nesse rótulo. Não acredito que o que faço deva ser chamado apenas de design. Existe toda uma discussão em torno disso, da qual eu não faço parte e, para me poupar desse desgaste, preferi migrar para outro entendimento. Foi quando comecei a me enxergar como artista plástico — mais ou menos na época em que as coisas começaram a acontecer para mim.
Nesse processo, passei a ver meu trabalho como uma forma de expressão, uma maneira de mostrar minha voz e falar sobre o que eu gosto. Não necessariamente sempre com um viés político, mas sim sobre aquilo que me interessa e que considero importante compartilhar.
De onde vêm as referências visuais e frases tão marcantes dos seus cartazes? Tem algum processo criativo ou é mais de inspiração do momento?
Eu sou meio… meio anti-processos, pra ser sincero, cara. Eu tô com algo em mente e já faço rapidinho. Se eu estiver fora de casa, eu anoto e depois elaboro em casa. Uma coisa interessante é que todas as minhas obras foram feitas em menos de cinco minutos. Todas. Se eu acho que não tá bom, eu apago no mesmo dia. Eu acredito muito que o universo envia as ideias pra gente. Se você não pega, essa ideia vai pra outra pessoa. E talvez essa outra pessoa consiga fazer melhor que eu.
Eu falo muito sobre isso: o mundo das ideias. Não necessariamente só sobre o que a gente está conversando, mas, por exemplo, que existe esse mundo material e o mundo das ideias. As ideias ficam ali, flutuando, e caem de paraquedas nas cabeças que estão abertas pra receber essas ideias, sabe?
Quando você pensa no primeiro cartaz que criou, o que passou pela sua cabeça — e na parede, onde ele foi parar?
Como eu sou carioca e moro em São Paulo, usei uma frase de música para traduzir esse começo. Hoje eu não gosto muito de usar letras de música, acho difícil. Na época eu ainda não tinha tanta resistência a isso, mas acabei tirando do ar. Era uma frase de uma música do Caetano Veloso, Samba, que falava sobre a dificuldade desse início.
Essa frase refletia muito a minha primeira experiência de morar em São Paulo, sabe? Foi algo bem sentimental, uma fase em que eu estava começando a querer expressar sentimentos por meio do meu trabalho. Eu ouvi aquela música um dia na rua e pensei: “Cara, preciso falar sobre isso, preciso retratar isso”. Mas, no fim, [o cartaz] não tinha muito a ver com minha linguagem. Acabou sendo só um impulso inicial.
Já a segunda [criação] é uma das minhas favoritas, até hoje é uma das que mais vendo. Apesar de também ser uma frase de música, acho que ela ultrapassou esse limite. É do João Nogueira, da música Espelho: “Nascerão melhores dias”. Eu conheci essa música pelo Marcelo D2.
E para mim essa frase faz todo sentido. Eu mesmo tatuaria, entende? É um dos cartazes pelos quais tenho mais carinho. Inclusive, na época, eu gravava vídeos para cada obra que lançava. Já faz bastante tempo, hoje não é mais viável para mim produzir nesses moldes, mas entrei muito nessa onda de fazer vídeo que tivesse repercussão. Fiquei meses preso a isso.
No processo, comecei a explorar elementos do Brasil, como signos da cultura brasileira que eu gostava. Fiz tanto que chegou uma hora em que esgotei aquele caminho.
Depois disso, senti que tinha me distanciado um pouco do que realmente gosto, mas já voltei a me reconectar com isso. Acho que é natural: a gente se descobre, se perde, volta, e assim vai se entendendo. No fim, essa é justamente a graça de ser artista, sabe?
Falando do momento atual: existe alguma linha de trabalho, alguma ideia que você esteja reforçando mais agora?
Cara, eu tenho falado muito sobre fé. Não necessariamente a minha fé, mas a fé brasileira. Tenho observado bastante os signos religiosos que estão presentes na rua: muita coisa de matriz africana, muita referência ao catolicismo, e eu tenho gostado de falar também sobre esse personagem ligado à malandragem. Pode ser que amanhã eu não tenha mais vontade de explorar isso, mas, no momento, é algo que estou curtindo bastante.
Esse “personagem” é quase hiperbólico. Eu acho que ele já pertence ao passado, mas continua sendo muito interessante: o malandro carioca, ligado à Lapa, ao samba. Eu gosto de imaginar esse arquétipo. Não é quem eu sou — na minha vida pessoal não tenho nada disso —, mas gosto de trabalhar com essa figura cultural. Acho um personagem muito rico da cultura brasileira, e que pode ser explorado de várias formas.
Eu gosto muito desse processo, sabe? Gosto de lidar com frases, gosto de criar. E, no fim das contas, isso acaba gerando identificação: as pessoas compartilham, postam nos Stories, mandam respostas… e eu acho muito interessante. Não é algo que eu faça planejando que vá ser compartilhado, mas acaba acontecendo.
Seus trabalhos frequentemente dialogam com temas de memória e ativismo. Como você equilibra estética e engajamento político?
Eu gosto de ser simples. Gosto de fazer coisas simples, frases simples, com sentimentos simples. Não gosto de florear muito, sabe? Tem artistas — ótimos, inclusive — que são muito bons em criar frases longas e elaboradas. Mas eu não sou assim. Não tenho esse dom da escrita. Prefiro frases rápidas, diretas, que gerem identificação, primeiro para mim e também para os outros. Vejo isso de uma forma muito interessante.
Algum cartaz já teve uma reação do público ou ganhou vida própria de um jeito que te surpreendeu?
Naquela época eu produzia muito em cima da cultura de símbolos oculares. Foi quando abordei a questão das carrancas e das adinkras, e isso ganhou uma repercussão muito grande. Acho que boa parte da base de fãs e de pessoas que me acompanham hoje vem justamente desses trabalhos, que continuam circulando e atraindo gente nova o tempo todo. É comum receber comentários quase diariamente.
Isso é muito interessante, principalmente porque as carrancas, por exemplo, são símbolos muito fortes. Eu mesmo tenho uma em casa. Já os adinkras remetem a conhecimentos africanos, que eu busquei trazer para o meu trabalho e apresentar para quem ainda não conhecia. O mérito, claro, não é meu, mas do povo africano e dessa filosofia tão rica e bonita.
Que desafios e oportunidades você enxerga para a arte independente no Brasil hoje, e como podemos apoiar essas iniciativas?
Cara, o desafio sempre é a pasteurização. Eu quero ver hoje justamente o contrário disso: não fazer só por fazer, não produzir apenas para engajar, mas sim para transmitir o que a gente realmente acredita. É sobre passar uma mensagem verdadeira, e não entrar nessa lógica de só entregar conteúdo vazio. Falta isso, sabe? Falta essa cobrança no texto.
Muita gente acaba caindo nessa armadilha, sabe? Faz as coisas só para estar presente, mas sem uma mensagem sólida. E aí a gente vê esse monte de mensagens repetitivas, batidas. Cara, está cheio de artistas periféricos, suburbanos, com muito o que dizer. Não precisa ficar sempre nos mesmos signos, no mesmo discurso de sempre. Esse Brasil que se repete em fórmulas já gastas me dá uma vertigem… uma vertigem absurda.
Para quem quer começar a se expressar por palavras e imagens, que conselho você daria para transformar a inquietação em arte acessível e potente?
Vou falar duas coisas: primeiro para quem quer fazer arte e, segundo, para quem quer consumir arte.
Para quem quer fazer arte: se joga, bota a cara no mundo, faz mesmo — faça feio, não tem problema. Não precisa ser perfeito ou perfeita. A gente já tem muita coisa industrializada aí.
E, para quem quer consumir arte, cara: vai no que você gosta, vai percebendo as diferenças, vai atrás. Tem muita coisa boa para consumir que não é elitizada. Tem muita coisa boa em programas de TV, em projetos sociais, em trabalhos que não estão necessariamente na Pinacoteca ou no grande museu do Rio. É como beber da vida. Mas também tem muita coisa boa nos espaços tradicionais. Então, cara, pensa de uma forma plural: valoriza as coisas populares e mundanas, mas vai também para o alternativo. Existe muita coisa interessante — só que muita gente pensa: “Ah, não vou conseguir ver tudo” e deixa de aproveitar. Outras vezes, a pessoa fica presa sempre no mesmo lugar.
Cara, vai desde Chiclete com Banana até filme do Godard. Vê tudo, e sem preconceito, sabe? O importante é ir no que você gosta. E, além disso, se conecta com pessoas que também consomem coisas interessantes, troca ideia. Não adianta você assistir a 14 mil filmes e ouvir 10 mil músicas se não debate com ninguém, se não compartilha.
Pô, antes de entrar nessa reunião, eu tava ouvindo o disco novo da Gaby Amarantos, que pra mim é o mais foda do Brasil este ano. É um trabalho extremamente popular, mas que dialoga com referências lá de fora, mistura elementos internacionais com as aparelhagens do Pará. Tem esse encontro do sagrado com o profano, do popular com o sofisticado. Isso, pra mim, é o que é gostoso.
Acompanhe o trabalho de Thiago Barletta em @barlettathiago